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segunda-feira, julho 03, 2006

Teatro de sombras e vó

Quando eu era apenas um menino, e há quem até hoje duvide que eu tenha crescido, e morávamos todos numa pequena casa com paredes de madeira e adobe, não tínhamos luz elétrica e, à noite, as nossa diversão era ouvir as histórias que D. Rita, minha avó, nos contava; sentávamos, eu, meu irmão e, freqüentemente, primos e vizinhos que orbitavam nossa casa, apenas um par de candeeiros iluminava a casa.
Ficávamos ao redor de Vó e ela iniciava seus contos de forma direta, não havia "era uma vez...", as histórias que falavam de sacis e curupiras, de bois-tatás e cobras, de como ela e as irmãs haviam espantado ladrões de gado que tentaram surrupiar algumas cabeças da fazendinha que meu bisavô cuidava, de uma carreira de onça que haviam tomado certa vez, fluiam de modo simples e contagiante e nos empolgava.
Quando a história terminava e chegava a hora de dormir, reclamávamos mais tempo e mais diversão e ela nos dava mais tempo. Com as mãos, colocadas à frente do candeeiro, fazia surgir magníficas formas na parede de madeira da pequena sala, minha mãe, sentada a um canto sorria com a gente e entrava na brincadeira também; ao fundo, um rádio tocava músicas de Roberto Carlos, formando a trilha sonora de minha infância...
As sombras na parede se transformavam em novas histórias e éramos convidados a criar, também as nossas formas, indios, patos, aves, rostos; tudo podia surgir na parede lá de casa e ríamos das tentativas fracassadas, dos animais deformados bruxeleando com o bailar da chama do candeeiro. Pedíamos mais, mas chegava a hora de dormir e Vó franzindo o cenho dizia: "Chega mulecada, todo mundo pra casa que tá na hora", pedíamos a benção e íamos dormir, discutir com Vó era pedir pra 'cair na bainha de facão'. Ela faria 84 anos próximo dia 07, mas Deus pediu pra ela mostrar a Ele um teatrinho de sombras...

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