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quinta-feira, julho 06, 2006

A viagem...

A viagem havia começado muito bem, sinal de que logo os problemas apareceriam, e apareceram. O ônibus quebrou a seis quilômetros da cidade e não passava um único carro pela estrada poeirenta; o sol, chegando ao zênite, parecia querer literalmente torrar nossas cabeças, o calor insuportável não nos deixava ficar dentro do veículo. Eu e Cy nos abrigamos sob uma jaqueira e esperamos, chegaríamos atrasados mas chegaríamos. Meia hora depois seguíamos para a cidade em cima de uma carroça: Eu, Cy, Marinha e Júlio.

Como esperávamos a nossa carona tinha ido embora, mas por sorte ou azar do destino encontramos uma velha rural que estava indo para o povoado. 'seu Zé' nos deixou na pracinha principal e fomos até a beira do cais procurar por Tonho, "óia ele lá descendo cá canoa", gritamos até quase estourar os pulmões, mas Tonho, que já ia longe, quase na dobra do rio, não conseguiu mais nos ouvir. E agora, que fazer?
Para chegar à fazenda por ali somente através de canoa e tinhámos perdido a carona do Tonho, pudera, estávamos quase cinco horas atrasados; um senhor se aproximou e se ofereceu para nos levar, "tô indo prus lado de lá não, mas tem acerto". Acertamos trinta reais.

Embarcamos na canoa, grande e escura, e seguimos descendo em direção à maré. O 'velho Tião' ia falando e falando sobre ele mesmo e os perigos do rio, sobre estar velho e cansado e outras coisas mais. Eu e Júlio íamos conduzindo a canoa e Tião contava histórias; nos aproximamos do manguezal e ele disse que havíamos chegado. Cy reclamou que ali não era o cais da fazenda e ele respondeu que o cais não podia ser alcançado aquela hora por causa da maré que estav baixando e teríamos que descer no meio do mangue mesmo, mas "é só travesá aqui, ó e océis já tão lá"
Afundei na lama até acima dos joelhos e, levando as mochilas, atravessei até chegar do outro lado, a distância não era grande mas as meninas ficaram reclamando e voltamos, eu e Júlio, para carregá-las, dessa vez acabei ferindo os pés nos galhos embaixo da lama, mas chegamos ao outro lado.
A fazenda porém, não ficava "logo ali", havia apenas o mangue e um morro. Procurando referências subi até o olho de uma árvore seca (confesso que nesse momento começei a me sentir num filme dos bons tempos da sessão da tarde) para ver ao nosso redor, pude ver o 'velho Tião" voltando em sua canoa, remando contra a corrente como se fosse um garoto - Ah! velho safado - falei baixinho e olhei para o outro lado onde pude divisar uma estradinha; era por ali que iríamos.
Já estávamos na estradinha há meia hora e nada de chegar a lugar algum, um rapaz vinha conduzindo dois cestos de bananas em um burro e nos disse que a fazenda era perto - ségui em frenti e dispôis vira à dereita, é logo ali - e apontou com o lábios o caminho. Duas horas depois ainda nem sinal da fazenda; Vó sempre falou que "logo ali apontado de beiço...hum! se prepare pra andar" e andamos.
Marinha ficou com vontade de mijar e correu pra uma moita baixa - olhem não seus tarados - logo depois de ouvirmos o barulhinho do xxxxxiiiiiiiiii, um berro nos fez voltar os olhos na direção de Marinha, que rolava no chão abanando a penugem rala e avermelhada da xoxota - Uai! Ai! Ai - Que foi? - perguntei - cobra? - Ali, Ali... - apontava Marinha, olhei e vi a folha com que ela havia se enxugado - Ô criatura! você não conhece urtiga não? - rimos a valer da coitada que ficou no chão nos pedindo para jogar água no púbis irritado.


Chegamos na fazenda no fim da tarde; cansados, sujos e sedentos, doidos por um copo de água gelada, mas lá não havia energia elétrica.
Cy lembrou que na venda de 'Noca' tinha uma geladeira que funcionava à gás e "era logo ali", andamos mais meia hora e chegamos à vendinha entranhada num morrinho, a visão da geladeira à nossa frente nos deu ânimo. Júlio pediu uma cerveja e Marinha, ainda dolorida e envergonhada disse que o acompanharia; eu queria uma Coca-cola. - É gente - disse 'Noca' - só não tão gelada que o gás cabô ônti e só amenhã é qui o caminhão vai trazê...
Como eu disse, a viagem começou muito bem.
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