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sábado, fevereiro 24, 2007

O circo da vida

É interessante notar como o ser humano adota certos comportamentos totalmente desmedidos diante de situações inesperadas e muitas vezes violentas. Vi num telejornal, em mais uma reportagem sobre a violência, onde eram mostradas cenas de um tiroteio numa favela e em que moradores corriam de um lado para outro em busca de proteção e abrigo, mas em meio a essa massa que procura fugir do fogo cruzado entre bandidos e polícia (ou milícia, sei lá!) noto uma mulher que corre na direção contrária ao tiros e ao mesmo tempo procura cobrir os olhos como se não quisesse ver o que ocorria a seu redor, claro ela corre o risco de tropeçar e cair por não ver pra onde está indo, mas... em outra imagem, um senhor, que também corre procura proteger a cabeça com uma das mãos enquanto a outra segura um saco de mercadorias... Na linha de tiro, uma velha kombi para a fim de evitar as balas perdidas (que geralmente são encontrada no corpo de alguém) e o motorista grita para seus passageiros se abaixarem e ficarem no interior do veículo, mas uma senhora diz que precisa chegar em casa e passa bem na frente da trajetória das balas; seria espantoso se não fossem atitudes tão comuns.
As pessoas parecem perder a noção do perigo diante de uma crise, basta olhar a imagens de qualquer tragédia, há sempre um grande número de pessoas que correm para ver mais de perto, seja um desabamento ou uma troca de tiros; as pessoas sempre estarão formando um perímetro ao redor, para ver melhor, fazer parte do ocorrido e contar vantagens depois, dizer que estava no local na hora do crime e que viu balas passarem zunindo à sua volta. Não interessa que a presença das pessoas aumente o risco de uma tragédia maior, elas querem sempre ver o desfecho, esperando, como diria o Valentin de Rachel de Queiroz (in Memorial de Maria Moura), que a corda arrebente e o trapezista caia ao chão, ou que a porrada na pedra sobre o peito do hércules seja a derradeira, eles torcem para que isso ocorra, pois há sempre essa possibilidade, e é por isso que voltam ao circo. Sempre.
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