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segunda-feira, setembro 25, 2006

Seu Lula, uma história real

Lula fugiu de casa aos nove anos. A fome e a pobreza o fizeram sair de casa em busca de um mundo melhor, conhecido apenas através das notícias ouvidas no rádio do armazén ou das histórias contadas pelos tropeiros e mascates que vinham do sul no lombo de animais vendendo suas bugigangas a quem pudesse pagar. Lula sonhava com o Rio de Janeiro, cidade do carnaval e da alegria, onde tudo parecia ser mágico e onde os sonhos podiam se realizar.
Lula juntou uns trocados, resultado de diversos serviços que fazia para os outros e comprou um pedaço de carne seca e um litro de farinha; numa noite sem estrêlas no céu da minúscula Varzéa Grande embarcou clandestino num caminhão de transporte de querosene, escondeu-se entre as latas, por baixo da lona, dava adeus a sua vida de miséria rezando para que sua mãe ficasse bem, assim como os seis irmão menores que deixava.
Dez dias depois Lula estava ardendo em febre e gemia debaixo da lona do caminhão, o querosene que vazava das latas queimava a pele e criava feridas; o motorista veio a decobri-lo numa parada para o almoço, em Minas Gerais - Menino, tá fazendo o quê ai? Santo Deus! De onde você veio? - Perguntou ao menino amarelado e esquelético, de cabelos escuros e sujos que via a sua frente - Da Bahia - disse Lula e desmaiou entre gemidos; o caminhoneiro o pegou nos braços e entregou a uma senhora - Cuida dele dona, que vou buscar comida pra esse infeliz.
Dois dias depois estavam na estrada, o caminhoneiro, um cearense a quem Lula nunca esqueceu, ia para o Rio Grande do Sul e concordou em deixá-lo em São Paulo, "Não tinha como voltar pra Bahia, pra procurar os pais". Deixou Lula na estação da Luz - Tome aqui algum dinheiro e vê se consegue tomar um trem; disse o cearense - Se quiessese ia comigo... Mas Lula queria ir para o Rio de Janeiro, cidade do samba e do carnaval.

Estação da Luz 1930

Lula não conseguiu comprar passagem e tentou durante uma semana embarcar clandestino num trem de partida para o Rio, finalmente conseguiu se esconder no sanitário de um trem de passageiros; foi descoberto quando uma senhora quis usar o banheiro e este estava travado. O fiscal o jogou, literalmente, pra fora do trem na primeira estação, mas à noite Lula conseguiu embarcar num trem leito e se esconder embaixo das cadeiras do vagão de passageiros vazio.
Desembarcou na central do Brasil, espantado com a quantidade de carros na rua, levou um dia inteiro pra conseguir sair da estação e atravessar até a praça da República, dormiu ali por alguns dias, tentando arranjar emprego com as pessoas que passavam e pedindo alguma ajuda pra comer; a maioria nem lhe olhava, mas achou alguma compreensão de uns poucos.

Estação Central do Brasil - Rio de janeiro
Um dia enquanto dormia, sentiu um cutucar nas costelas, abriu os olhos e se viu cercado de homens vestidos de branco e armados - Tá fazendo o quê aqui, moleque? - eram marinheiros que faziam a ronda na cidade - Tô procurando emprego - respondeu Lula - Emprego o quê, rapazinho. Cadê os teus pais? - Lula foi levado pra ilha das cobras, junto com outros meninos encontrados nas ruas; lá foi submetido a rígida disciplina naval, começou a aprender a ler e escrever, fazia pequenos serviços e levava uma vida dura e castrense.

Fortaleza de São José na ilha da Cobras - RJ

Pouco mais de um ano depois Lula teve permissão para "ir a terra", junto com outros meninos, foi ao Catete e ao largo do Machado, conheceu meninas e arrumou encrenca, correu algumas vezes das patrulhas, que não podia pegá-los "vadiando". Assim ia levando a vida; aprendeu o ofício de auxiliar de enfermagem e conseguiu comprar uma casa simples, mas espaçosa. Um dia disse ao Almirante que queria buscar os pais - E você acha que ainda encontra eles? - Acho sim senhor!
O Almirante consegui algumas passagens de avião através da LBA e Lula voltou a Bahia, doze anos haviam passado. Desembarcou do trem em procurou alguém o pudesse levar até a velha casa; parou na porta, a roupa branca chamando a atenção daqueles que passavam - Eu quero um lugar para dormir. Disse ao velho que viera atender à porta, seu pai - Olhe moço, aqui não temos lugar não, até as crianças dormem no chão, talvez na casa de D. Noca, ela tem quartos pra alugar. Lula insistiu, disse que iria dormir ali mesmo, divertindo-se da situação, o velho ficando irritado. A mãe pereguntou o que estava ocorrendo e o velho falou da insistência "do moço" em querer dormir ali - Já expliquei pra ele, mas ele fica insistindo. - A mãe pegou o lampião e se aproximou, levantando-o para ver o rosto do jovem, as lágrimas que escorriam brilharam sob a luz - Mas, é o Lula! o moço é o Lula! - abraços, festa e alguns novos irmãos depois Lula estava em casa.

A história acima é real. Me foi contada pelo próprio Lula, hoje um senhor de setenta e poucos anos, quem ainda tem muita história pra contar e por um acaso se tornou meu amigo. A intenção, claro, não é contar a vida do "seu Luis" em detalhes ou aprofundar a história (ao menos não agora), mas mostrar que todos e cada um de nós temos uma história de vida que vale a pena, tenhamos setenta ou sete anos, e que vale ser contada e ouvida. Não deixe a sua história ficar parada, conte-a a seus filhos, a seus netos, a seus amigos. Lembre que a humanidade começou muito provavelmente assim, uma roda em volta de uma fogueira, contando histórias do dia-a-dia e aprender a conviver em comum.
Tem uma história pra dividir? Escreva pra gente.


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