Páginas

terça-feira, junho 13, 2006

Barbeiros

A Copa do mundo me lembrou de, quando menino, ia a barbearia perto lá de casa e enquanto esperava a minha vez, ouvia a conversa animada dos barbeiros entre si e com os clientes, discutindo sobre todos os assuntos possíveis, desde a escalação da Seleção Brasileira para a Copa de 82, passando pela inflação e criticas duras (porém muitas vezes apaixonadas como as de uma torcida em relação a seu técnico) contra os presidentes militares, em que defendiam ou acusavam esse ou aquele pelas mazelas brasileiras. As vezes a polêmica se acendia e a discussão parecia que iria iniciar uma briga, mas tudo acabava num belo discurso de algum barbeiro mais velho e respeitado.
Lembro que achava que os barbeiros eram os caras mais informados do mundo e assim realmente pareciam, ficava ali, maravilhado com a música das tesouras e das discussões acaloradas, meu pai entrava na conversa também como os outros clientes e a barbearia se tornava mais um local de troca de idéais, de discussão política e filosófica; os cortes eram classicos, a tesoura obrigatória e depois do corte, queimava-se com lavanda e um pouco de talco o "pé do cabelo", a gente saia perfumado e com aquele pó branco sujando o pescoço, dizendo a todos que de onde você acabara de sair.
Não é a toa que a figura do barbeiro é tão comum no mundo das artes, seja na ópera o Barbeiro de Sevilha ou em O Grande Ditador, obra magistral de Chaplin contra o nazismo (leia um ótimo artigo aqui) e ainda em filmes como Barbeiragem total (Barbershop 2 - back in business, 2004).

Na barbearia essa semana encontrei alguns jovens com máquinas elétricas e nariz arrebitado como se a máquina os tornassem grandes artistas (e alguns realmente o são), caras enfezadas, saiu o talco (ficou ultrapassado) e chegou um creme de cheiro adocicado que passam na pele para "diminuir a irritação"; vi rapazes "descolorindo" os cabelos e fazendo desenhos na cabeça com motivos tribais...Não se fala mais em presidentes ou em política, não há discursos filosóficos, mas a Seleção permanece ao lado de conversas sobre "quem comeu quem" e de como "descolar um ingresso falso" para uma festa. A briga começou quando alguem mudou a estação de rádio que tocava pagode e colocou num forró alegando que era "São João". Não houve quem fizesse um discurso, eles têm todos a mesma idade e se acham reis do mundo. Outros tempos.
Postar um comentário