Páginas

sábado, fevereiro 25, 2006

TEMPO INCERTO


Agora, leiam este texto de Cecília Meireles e digam que o mundo não está igualzinho...


TEMPO INCERTO

( Cecília Meireles )


Os homens tem complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: Para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.
Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.
A observação do presente leva-nos até a descrer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a história nos esta contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiro dos testamentos a opinião dos escribas?
Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos - ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabaremos no hospício!
Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção as coisas que vos contam, em família, nas ruas, nos cafés, em várias letras de fôrma, e dizei-me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha!
A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis: os suaves para conduzirem os que se sentarão a direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigirem ao lado oposto.
Mas até o fim do mundo falhou; até os profetas se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido adiar a catástrofe que, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos.
No tempo de Moliére, quando um criado dava para pensar, atrapalhava tudo. Mas agora, além dos criados, pensam os patrões, as patroas os amigos e inimigos de uns e de outros e todo o resto da massa humana. E não só pensam como também pensam que pensam! E além de pensarem que pensam, pensam que tem razão! E cada um é o defensor exclusivo da razão!
Pois de tal abundância de razão é que se faz a loucura. Os pedestres pensam que devem andar pelo meio da rua. Os motoristas
pensam que devem por os veículos nas calçadas. Até os bondes que mereciam a minha confiança, deram para sair fora dos trilhos. Os analfabetos, que devia aprender, ensinam! Os ladrões vestem-se de policiais, e saem por aí a prender os inocentes! Os revólveres, que eram considerados armas perigosas e para os quais se olhava à distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai - pois os revolveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas a bala de diversos calibres. Perto disso, a carestia da vida é um ramo de flores.
O que anda mesmo caro é a alma. E o Demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.

VAMOS FAZER A MUDANÇA... Conhecem a estória do beija-flor??? Não me obriguem a colocá-la aqui...
Esse aí de cima foi chupinhado de um artista chamado Alberto Farah, gostou encomenda o seu.
Postar um comentário