Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Nosso simples e fabuloso dia a dia - Resenha HQ

 



O Combate Cotidiano - Manu Lacernet - Editora Pipoca e Nanquim - 252 páginas

★★★★☆


"Marco, um jovem fotógrafo de guerra que, cansado de registrar horrores, decide dar um tempo no trabalho e, na companhia de seu gato  troca a cidade grande pelo campo, com o intuito de fazer as pazes consigo mesmo e com o mundo." A sinopse de "O combate cotidiano" nem de longe reflete a profundidade desse quadrinho, cuja reflexões sobre a vida e as inúmeras conexões voluntárias ou não que fazemos ao longo dela, as perdas que sofremos, esperadas ou não, as crises de ansiedade que afetam a tantos de nós devido a mudança para as quais não nos preparamos, mas com as quais temos que lidar, seja por causa de um encontro casual que nos faz entrar numa jornada romântica cujo rumo é sempre incerto, ou pela inseguranças que a quebra de uma rotina, quando esta deixa de fazer sentido, mas ainda assim nos faz falta. Lacernet nos transporta com uma sensibilidade incrível para uma história absurdamente comum e, justamente por isso, tão extraordinária. Temos medo de crescer e assumir responsabilidades, tememos as sombras de nossos passados e nos sentimos extremamente traídos quando descobrimos que nem sempre nossas lembranças e a lembrança (ou o passado) de quem amamos é tão desconhecido quanto possível e que sempre há esqueletos nos armários e parte de quem somos que não gostaríamos de ter herdado. O medo é uma constante aqui, assim como a ansiedade, mas tratados de uma forma leve, reflexiva e que nos leva a entender muito de quem somos, mesmo em culturas tão distantes geograficamente, mas tão próximas humanamente. Há reflexões duras aqui, ditas em inúmeras falas de personagens, que nos causam aquele incomodo pensamento de "poxa isso é tão familiar". MAS, não quer dizer que a história é pesada ou sombria, NÃO! O humor, reforçado pelo traço cartunesco, é o elemento condutor da história e vamos vendo ser destiladas ideias que nos alegram, preocupam, entristecem e nos dão esperança. Assim é a vida, composta por dores, perdas, lutos, decepções, alegrias, surpresas, redenção, ciclos intermináveis de mudanças que fazem nosso cotidiano ser a aventura incomum e maravilhosa que é.

P.S - A representação gráfica das crises de pânico do protagonista são uma das coisas mais emblemáticas que já vi em um quadrinho e até mesmo em outros tipos de expressão artística.  Desenvolvi ansiedade há alguns anos e já passei por algumas dessas crises e me vi perfeitamente nestes momentos.

P.S 2 - Há algumas reflexões políticas e comportamentais (sociais) ao longo da obra, mostradas as vezes de formas sutis, mas em determinados capítulos se integrando perfeitamente ao roteiro, valores de certos personagens que expressam visões diferentes de mundo, mas sem proselitismo ou catequização, como diz um deles em determinado momento: "A gente aceita a ilusão da luta porque está na moda, isso nos faz 'cidadãos'...Mas são lutas convenientes, que nos permitem voltar para casa pontualmente às oito da noite. (...) Nós não votamos num modelo de sociedade, mas na reflexão mais tranquilizadora da mídia... ou pior, por tradição familiar!" e, sim há uma certa desesperança cínica aqui.


Por Kiko Moreira

segunda-feira, outubro 31, 2016

Mosca espanhola







FERGUSON, Will. Mosca Espanhola. Tradução PARCIONIK, Celso M. São Paulo: Companhia da Letras, 2011


“Nós traficamos com sonhos e falsas esperanças, Jack. E o que poderia ser mais americano do que isso? (...)”

RESENHA:




Estados Unidos, final da década de trinta. Os americanos sofrem ainda os efeitos da recessão ocorrida após o crash da bolsa em 1929 e o mundo acompanha as mudanças na Europa que levarão a 2ª Grande Guerra. É nesse cenário que encontramos Jack, jovem operário de uma mina de carvão que diferente dos demais conterrâneos possui uma mente aguçada e é um ávido frequentador da biblioteca local ao tempo em que tenta cuidar do seu pai desempregado e iludido com sonhos de fortuna fácil. A história começa com um aparente romance entre Jack e a filha da bibliotecária, mas essa é apenas a roda do destino que o leva a conhecer Rose e Virgil, um casal de vigarista que um belo dia chega a cidade e começa a aplicar golpes em todo o comércio conseguindo tirar dinheiro de modo fácil e consistente das pessoas; curioso, Jack segue o casal sem o denunciar no entanto, apenas observando a destreza com que ambos agem. Ao fim do dia, Virgil tendo percebido a presença do rapaz a vigiá-lo decide dar uma parte do que dinheiro e surpreendentemente o convida a partir com eles. Decidido a descobrir a mecânica daquela vida e a mudar a sua própria, Jack simplesmente parte com eles, abandonando tudo para se aventurar numa jornada de aprendizado que o levará de costa a costa de um país quebrado e em reconstrução, dando golpes numa escala cada vez maior e com mais sofisticação. Rose é uma femme fatale que encanta com seus olhares lânguidos e a capacidade de se mostrar frágil ou sensual, enquanto Virgil é um excêntrico golpista de passado misterioso e comportamento errático que sonha com um grande truque capaz de imortalizá-lo. Juntos formam um casal apaixonado e dependente um do outro, com um gosto voraz pelos prazeres da vida e do jazz. Ambos levarão Jack e o leitor pelas estradas de uma nação angustiada e que anseia deixar para trás a maior crise econômica de sua história, com seus habitantes sedentos por obter qualquer tipo de lucro e justamente por isso presas fáceis nas mãos desses hábeis trapaceiros. Nem tudo, no entanto são flores e o trio terá que se deparar com uma ameaça desconhecida e talvez fatal que ameaça tudo aquilo que eles conseguiram. Afinal “traficar com sonhos e esperanças” pode ser um jogo extremamente perigoso.

Eu não conhecia o Will Ferguson e o livro me caiu em mãos meio por acaso, mas o cara escreve muito bem, embora o início do livro pareça um pouco arrastado monótono (assim como a pequena cidade onde vive Jack), mas aos poucos vai tomando fôlego e ritmo a partir da segunda parte. O autor consegue recriar uma atmosfera de época bem interessante com belas e trágicas descrições nem tanto de cenários, mas dos ambientes em que acontece a história, criando um clima que proporciona uma boa imersão na leitura, em alguns momentos parece até que dá pra ouvir a musica tocando nos salões de baile. Os golpes descritos na aventura são todos reais, assim como alguns golpistas que aparecem no texto e os diálogos soam naturais e condizentes com as situações. A edição da Cia da Letras peca pouco em termos de revisão, mas comete um grave pecado ao não incluir a capa original do livro, a qual é referenciada com certa importância nas notas do autor ao fim do livro.